Diário de um recolhimento 18

12/04/2020

Dia de Páscoa. Acordo às 7h, desta vez sem despertador, aliás tive a primeira insónia deste que tudo começou. Abro a janela para o Porto e lá em baixo o rio Douro é um lago, tranquilo como um felino, como se nada houvesse por baixo, como se o mar não o esperasse ali já. Inesperadamente, o mar é uma placa de zinco a reflectir as nuvens de tempestade, grisalho e tumultuoso como uma crise de meia idade. Tudo dorme, vou de bicicleta buscar pão (na Páscoa pão), quando regressei abri a antologia de poesia sobre o mar da América Latina: “Que inútil seria agora o mar sem a tua presença nas águas.” José Ramon Heredia.
O mar, capaz de apagar mil fogos, o mar rasgado ao meio por Moisés - que deu origem aos piores efeitos especiais da história do cinema - o mar onde Jesus Cristo encontrou Pedro que agora reza só na praça com o seu nome. A nossa tradição religiosa judaico-cristã instalou-se totalmente no dia de hoje, mas já era uma comemoração da primavera, por isso renascimento, nova vida, ressurreição. Na televisão várias séries com uma mortandade louca de primogénitos, tudo se repete… É cansativo. Fala-se pouco de quem sempre se falou pouco, fala-se pouco de África. 
Para eles é mais uma desgraça a acrescentar a todas as outras promovidas pelos seus líderes corruptos. Estivemos lá o ano passado, vou rever o meu diário de viagem e colocar no blogue. Vimos como aquela gente dócil vive, com uma alegria impossível aqui no pólo norte, uma alegria de quem se contenta com pouco porque não tem nada além de fome, miséria e doenças - agora com mais esta. Tanta cor nas ruas, tanta imaginação nos mercados, tantas crianças a correrem ao lado do Land Cruiser. Os nossos guias Caleb no Quénia e Doppler na Tanzânia. Este a ouvir Amália em plena savana. Como estarão?
Os livros de África, os livros de africanos. Vamos lá. O Mia Couto “Deu-se o caso numa família pobre, tão pobre que nem tinha doenças.” Antes assim fosse. E mais: “Quando a sua mão encontrou o corpo do companheiro viu que ele estava frio, tão frio que parecia que, desta vez, ele adormecera longe dessa fogueira que ninguém nunca acendera.” Nem vai nunca acender, infelizmente. Agualusa: “Lamento se os desiludo: estou-me nas tintas para a realidade.” É a única hipótese. E: “Aprende a rir para combater a dor.” Eu não disse? 
Hemingway que, como nós, por lá passou, e posso atestar que o que ele sentiu eu senti “Não me lembro de nenhuma manhã africana em que não acordasse feliz.” E assim vi as estrelas na gigantesca cratera de Ngorongoro, como o Miguel: “Num terraço rodeado de búfalos - no nosso caso eram zebras -, sob as estrelas de África e a certeza tranquila de que não há noites assim em mais algum lugar do mundo.” África onde, como refere Gonçalo: “A maioria das pessoas é feita de bem.” Menos quem manda. E Theroux “A natureza humana adora aquilo que teme” e “Neste país, ajudar uma pessoa mais fraca é uma prova de cavalheirismo.”
A nossa viagem por África foi um dos marcos da minha vida. Não merecem isto, não merecem o que aí vem. Nairóbi, um porteiro que falou em Richelieu, muita miséria e arame farpado, mais tarde o massai que nos conduziu, Magas. Que é feito dele e da sua família? O terceiro animal que mais mata em África é o hipopótamo, o primeiro o mosquito e depois o homem. E agora o vírus. Eu continuo a achar que o primeiro é o homem. Massai: se um guerreiro tem uma lança quebrada, é porque foi bravo. Uma lança não se quebra por ela e um cobarde não consegue quebrar uma lança. Fui pelas acácias, amei os homens. Asante sana!
504 mortos em Portugal, 17000 mortos em Espanha, 20506 mortes nos EUA. O que é isto, que onda é esta, que praga bíblica? É o mundo a tentar voltar às origens. Quanto tempo até a nossa pegada desaparecer? Patos tranquilos, plantas a levantar pedras. E nós? Merecemos? Existem mais formas de vida no nosso corpo do que seres humanos na Terra, estavam à espera de quê? Os outros não têm Deus, não têm inveja, não têm ambição desmedida. Também não têm poesia e pode ser isso a safar-nos. Os vírus são aqueles humanos que não querem saber. Passam por cima do que for preciso.
Agora, fim de tarde, vou à janela para o Porto. Ouço os sinos das igrejas a anunciar o impossível. Há gente a morrer, como o sol escondido no cinzento horizonte. Daqui vejo tudo até ao que não posso ver: a quietude de África, Caleb, Doppler, Maga, as suas famílias. As acácias afinal não são só as acácias. Tantos bichos e nós, o pior de todos. Ainda assim temos de tentar a felicidade a quem nos fez feliz. Não falei de Daniel que nos defendeu do leão naquela noite. Como estará Daniel com o seu porte de príncipe, cheio de medo e de coragem ao mesmo tempo? Um homem como deve ser.