Diário de um recolhimento 16
10/04/2020
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Se o arrependimento matasse...Não percebo porque é que só ao arrependimento dão o potencial de matar. Porque não “se o ter sido um filho da mãe matasse”, “se o encobrimento matasse”, “se o ser fedorento...” E por aí fora. Mas arrependimento seja. A frase que iniciou o texto e que se vê muito nas redes sociais tem o poder incrível dos livros perdidos, das histórias não contadas, dos segredos inconfessáveis - que todos temos, por muito que julguemos que não -, mas também demonstra que agimos muitas vezes por impulso, que o nosso coração ultrapassa o nosso cérebro.
Arrependimento: Dostoievski: “Crime e Castigo”: “Quando lhe perguntaram porque fora entregar-se, respondeu despreocupadamente que resolvera representar a comédia do arrependimento.” O chamado “peso na consciência” que não parece afinal afectar tanta gente como devia. Por vezes, esse peso é aliviado por desculpas esfarrapadas. Porque é que só as desculpas são esfarrapadas, porque não “agradecimentos esfarrapados”, “amores esfarrapados” - aqui parece-me bem -, “lamentos esfarrapados” e assim por diante ad nauseum.
Quando se começa com o latim é melhor por um ponto final no texto.
De manhã saí para operar uma velhinha com quase 100 anos. Na sala ao lado nasceu uma menina. O alfa e o ómega. Uma que tudo viu e outra que começa a ver: o nosso destino. Uma história contada, outra por contar. E daí, quem sabe? Por vezes o melhor da história vem no fim, outras começam bem e perdem fôlego, como um velocista numa maratona. Nem todas as vidas são preciosas, basta dar uma vista de olhos ao século passado e às atrocidades cometidas por alguns. Vista de olhos? Não, não vou entrar por aí.
Hoje estou com os russos, a caminho de casa ouço “O Quebra Nozes” do Tchaikovski. Ou melhor Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Nunca percebi porque é que os russos ou se tratam pelo diminutivo ou pelo nome todo, não têm meio termo. E não têm mesmo, pelo que conheço deles. Joguei com e fui treinado por russos. Duas memórias que comprovam a mentalidade russa, ambas rasgadas com vodca. A primeira a seguir ao Europeu da Croácia, numa espécie de chá dançante em Zagreb, onde encontrei a selecção da Rússia que me adoptou e me forneceu copos de água cheios de vodca, os quais tinha de beber de penálti.
Não sei como não caí redondo. Que digo eu? Não sei como não morri.
A segunda foi na Noruega, também numa festa pós jogo, inverno sem sol de sol a sol, só noite e neve e uma janela aberta para a imensidão branca carregada de negro. Lá fora, como um urso polar, um russo gritava todo nu e corria pela neve em direcção à escuridão gritando pela mãe. Tiveram de lhe dar um soco para o trazer de volta.
Mas os russos são também românticos e tenazes.
Durante a operação ao coração do meu pai, enquanto esperava, li todo o magnífico “A Morte de Ivan Ilitch” do Lev Tolstoi, perdoem, Lev Nikoláievich Tolstói. “A história passada da vida de Ivan Ilitch fora a mais simples e vulgar e por isso a mais horrível.” Faz lembrar aquele verso do Ruy Belo: “É terrível ter o destino de onda anónima morta na praia.” O meu pai safou-se, Ivan Ilitch não. Cheguei a casa cansado - hoje, mas também no dia da operação do meu pai - e disse: “Pareço um telemóvel sem bateria.” A Ritinha vem ter comigo, abraça-me e diz “Eu carrego-te!”
Por falar em russos, lembro-me do Chagall, perdão Movsha Zatskelevitch Shagalov, que ainda ontem me apareceu num texto do qual já não sei quem era o autor porque ando sempre a saltitar como o Miguelito. Acho que tenho um livro dele. Vou ver... Tenho pois: bodes voadores, azul, galos, amantes e noivos abraçando-se e beijando-se, violinos, judeus. Gosto muito. Acho que gosto dos russos, apesar da sua loucura. O último que conheci foi o Iúri Buida com o livro “Sangue Azul Gelado”: “As vizinhas cuspiam nas sopas das suas inimigas.” Muito russo! Mas em tempo de Covid...
As histórias apagadas são como manuscritos desaparecidos, o arrependimento não quer dizer perdão mas é mais importante, há canais que ligam o coração ao cérebro mas é o primeiro que alimenta o segundo.
435 mortos.
Amores esfarrapados, latim, os russos e a sua estranha forma de vida, às vezes a melhor solução é caminhar nu na neve, o meu pai é mais importante que o Ivan Ilich, a Rita a carregar-me de abraços e o Miguel: “Papá, acende as estrelas!” Se eu pudesse. “From Russia With Love.”
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