Leituras - “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas” Afonso Cruz
Acabo “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas” do Afonso Cruz na Companhia das Letras. O que dizer? É o livro mais difícil que li dele até hoje. Crueza e violência descritas sem subterfúgios. Deve doer ao escrever. Nada mais do que acontece todos os dias em todo o lado. “Disse Ali: O azar nunca é da mesma opinião de um horóscopo favorável.” Mas também a passagem do tempo: “quando se está feliz, esse mesmo tempo passa a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente...”
O equilíbrio cósmico, em que a mão que dá também tira e vice-versa. “Tenho medo da felicidade, primo, pois a felicidade está grávida de Iblis, vem montada no desespero e na tragédia.” Por isso é melhor passar despercebido.
Vai também de encontro à sabedoria da Ásia, milenar, ponderada e mística. “Não há nada tão grosso que impeça a poesia de entrar.” Contra os números e o dinheiro: “se os números fossem uma coisa boa, existiriam na natureza e andariam a pastar pelos campos.” “A vida é andar de carro pelas curvas das montanhas.” E “o sol nasce porque os galos cantam.”
Aquela casa, a dada altura, é uma espécie de encontro ecuménico, é mesmo disso que se trata: muçulmanos, cristãos e hindus sob o mesmo tecto. Só podia acabar em desgraça, embora não fosse esse o desejo do escritor (pelo menos parece-me). “E, para que ninguém Nos compreenda, inventaremos a religião.” “- Posso continuar cristão? - Fazal Elahi coçou a barba e condescendeu: - Podes, desde que sejas um bom muçulmano.”
No fundo a conclusão é esta: “o coração de um homem não está apenas dentro do seu peito, está também dentro das pessoas que ama, dentro da família, dentro dos amigos. O seu sangue não corre apenas dentro do seu corpo.”
Mas para onde vão os guarda-chuvas? “Disse o Profeta: É mais sábio perguntar do que responder.” Ou “Não estamos a fazer a pergunta certa se a nossa pergunta tiver resposta.” E acabo com um bom conselho: “Se não conseguires estar em silêncio, fala apenas para dizer bem.”
