Diário de um recolhimento 38

02/05/2020

Ontem, por sugestão do Hugo, comecei a ver “After Life” e gostei do primeiro episódio com aquele humor corrosivo e um sarcasmo quase a roçar a indecência. Mas o que me impressionou mais foi eles não usarem máscara. É incrível como nos habituamos rapidamente a um ambiente, a uma situação. Vimos de Darwin e essa é a única explicação para ainda aqui andarmos após as asneiras que já fizemos. A ficção não consegue andar a par da realidade - se é que a realidade existe, mas essa é outra discussão. Não me lembro de nada que tenha antecipado isto, não há nenhum filme em que toda a gente use máscaras.
Já estou a ver o próximo desfile de Fátima Lopes no Portugal Fashion com novas propostas de alta-costura para tapar o nariz e a boca. As máscaras são muito datadas, é necessário algo que jogue com o balconné ou mesmo com a lingerie mais arrojada, estilo echarpe alongada com mais glam e menos kitsch. Temos de melhorar o look prêt-à-porter do streetwear actual. Vamos ultrapassar as máscaras com melhores propostas do Luis Buchinho, do Miguel Vieira ou da Ana Salazar. Por mim, claro, prefiro os Storytailors, como seria de esperar.
Em casa com a família toda, decido arrumar as minhas revistas que vou atirando para uma cesta ao lado do sofá. Limpo-as, espirro três ou quatro vezes e já tenho o pessoal a olhar de lado para mim. Não, não é Covid, é poeira mesmo. Das muitas “Ler” que tenho, abro a que mostra “Os Maias” na capa, a do outono de 2018: uma entrevista ao cultíssimo Carlos Reis que diz que os personagens de Eça “mostram que Lisboa é a cidade mais provinciana de Portugal, porque pensa que é a mais cosmopolita e civilizada.” Nunca tinha pensado nisto assim, mas faz sentido num país tão pequeno como o nosso.
Apanho do chão uma “National Geographic” e olho para a capa: “As melhores férias”, pois, mas não agora. Abro e, de repente, estou outra vez no Quénia, como há um ano, com os gnus a atravessarem o rio Mara, alimentando os crocodilos famintos. As zebras vêm depois, são mais inteligentes e passam por crocodilos de barriga cheia que dormitam nas margens. Vou ver o que escrevi na altura: o rio Mara desagua no lago Vitória que dá origem ao rio Nilo. A Bet disse ao guia machista: “porque é que continuam a usar um nome de mulher para o lago?” Ele arregalou os olhos, sorriu e calou-se.
Hoje temos 1023 mortos no total. Fui comprar legumes e fruta e vi muita gente sem máscara, principalmente idosos. Ainda por cima tratam-me como de fosse um alien. Não resisti e disse a um que me olhou com maus fígados: “eu não o posso infectar porque tenho máscara!” Ele olhou para mim e afastou-se. Pensou que eu estava doente. Um psicólogo diz no Expresso que “quem não tiver máscara pode ser olhado de lado.” Pois, pois. Em Lisboa milhares de pessoas no 1º de Maio, no Porto quem quer ir trabalhar espera mais de uma hora para atravessar a ponte da Arrábida.
Outra revista, esta com um título que me traz memórias: “Ó Leninha, já tem aí as iolas para eu ler?” E a minha mãe com um monte de iolas na mão com a vida do jet-set espanhol escarrapachada em todas as páginas, que eu lia para ver as miúdas em biquini ou para ter inveja (é um dos poucos homens que invejei, mas tinha dez anos - eu, não ele) do Júlio Iglésias, sempre bronzeado, rodeado de beldades em sítios paradisíacos com calças brancas e sapatos de corda sem meias. Foi guarda-redes do Real Madrid. A iHOLA! Que aqui tenho mostra 52 rotas por Espanha, país que adoro. Mas, neste momento “Espanha mi mata!”
Depois a “Time Out” com o Porto em família, como não podia deixar de ser. Abro e vejo os espectáculos: teatro, música, cinema, dança. Como estarão agora? Muitos a precisarem de ajuda, aqueles que nos dão momentos de alegria a passarem dificuldades. Assinei um abaixo-assinado, mas não sei se levará a alguma lado. Nesta altura, mesmo quem não precisa diz que precisa, mesmo quem perdeu pouco quer reaver o dobro. E assim quem necessita de ajuda fica muitas vezes para trás. Muitos não podem, mas quem pode deve arregaçar as mangas para ajudar a sociedade a ultrapassar o que aí vem.
A ficção não consegue andar a par ou sequer aproximar-se da realidade. Nada antecipou esta loucura nas redes sociais: as máscaras, os “lives”, o fabrico de pão, os exercícios em casa, gajos a escreverem diários sem ninguém lhes pedir opinião. Mas vamos adaptar-nos, criar opções, como nos desfiles de moda da próxima estação: máscaras Outono-Inverno e Primavera-Verão. Entretanto viajo com as revistas, pego-me com os velhotes sem máscara e invejo o Julito, enquadrado numa fotografia da iola, deitado numa chaise-longue, acompanhado por uma diva - ou mais - vestidas com um nègligè e uma máscara a condizer.