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Diário de um recolhimento 25

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19/04/2020 Uma das formas de atacar este vírus seria talvez saber como é a sua actividade sexual. Precisará de fazer a corte, comprar flores, pagar um copo na discoteca, jantar fora, mandar piropos, ler poesia, demonstrar proezas físicas, piscar o olho, corar, ser tímido e audacioso ao mesmo tempo, procurar gostos comuns, pagar, tudo ao mesmo tempo? Dizem os especialistas que não é bem um ser vivo, mas uma espécie de morto-vivo, um zombie. Quando fora do hospedeiro comporta-se com se não vivesse e não se reproduz. Portanto só tem sexo dentro de nós. Reconfortante. Uma espécie de vampiro, ou não viesse por via indirecta dos morcegos, tem uma proteína S que lhe permite penetrar nas nossas células e uma proteína N que lhe permite camuflar-se. Parece Don Juan com a chave da casa das donzelas, invadindo-as a coberto da sua capa. O problema é que não abandona a casa a correr. Este Don Juan serve-se de toda a comida e bebida, dorme em todas as camas e no fim tem 10 mil filhos e faz a c...

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

Lembras-te? De quando roubei o arco ao cupido E lhe comprei uma Kalashnikov? Ak47 formas de te conquistar

Diário de um recolhimento 24

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18/04/2020 Abro “A Jangada de Pedra” e leio: “É bem certo que as pessoas vivem ao lado dos prodígios, mas dos prodígios não chegam a saber nem metade, e sobre a metade conhecida o mais comum é enganarem-se...” Não concordo. Considero os meus filhos um prodígio das possibilidades da natureza e aqui estão, ao meu lado. É bem certo que o sol ilumina a manhã e que andamos em cima de uma bola com terra e água e fogo no seu centro e viajamos à volta de um astro incandescente à velocidade de 110 mil quilómetros por hora sem sermos cuspidos do planeta. Mas também a joaninha que fez casa na nossa trepadeira e que os meus filhos alimentam, o café da manhã, a minha mulher tão linda na outra ponta da mesa a trabalhar, as palavras que se seguem umas às outras a uma velocidade estonteante, as orquídeas que florescem na janela (lembrei-me daquela música com orquídeas da Etiópia), a música, os cactos, os livros, as árvores e os insectos que também somos. Não, eu estou aberto aos prodígios, e so...

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

Estou em ti Como a parte de trás do teu braço  A estátua no templo Uma conta por pagar

Diário de um recolhimento 23

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17/04/2020 Hoje lembrei-me de mim em criança, em casa dos meus pais, à janela a olhar para a rua. Conseguia estar horas ali, debruçado no encosto do sofá de veludo verde escuro, com o queixo apoiado nas mãos, a ver as pessoas a passar. Não sei em que pensava, mas de facto tinha essa capacidade de ali estar a ver. Por vezes com o cortinado aberto, por vezes com ele fechado, de modo a ver e não ser visto. Passava muito tempo em casa, como agora, pois tinha uma constituição fraca, dado a crises de asma e até hepatites fulminantes. Daquela moldura via as velhas a regressarem da feira com o carrinho cheio de hortaliça e fruta, algumas paravam e pareciam olhar para mim, mas não, eram as roseiras da minha mãe e eu sempre à espera que uma tentasse arrancar as flores para matá-la de susto, coisa que, infelizmente, nunca aconteceu. Os ciganos que viviam ali na esquina e que anos mais tarde vieram a ser meus amigos de futebol e bilhar. Acabei por operar um que depois me tentou oferecer uma...

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

O teu corpo Nem tratados de anatomia Nem Versalhes nem o Prado

Diário de um recolhimento 22

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16/04/2020 629 mortos em Portugal. Infelizmente, hoje não é difícil escrever este diário. Tenho dois temas, duas dores, duas saudades: Rubem Fonseca e Luis Sepúlveda. Passei o dia a saltar entre um e outro, a ler um conto de um, uma história de outro. São muito diferentes e muito iguais como aquele lema anti-racista. Nasceram no último berço da magia que é a América do Sul, entre povos que resistem como podem ao poder dos poucos que mandam. Tenho muitos livros dos dois, alguns antigos, outros recentes, todos bons.  Não sei onde meti “O velho que lia romances de amor” com o seu barbeiro/cirurgião, como não soube onde meti a “Grande arte” que depois comprei em versão livro de bolso. Provavelmente emprestei-os, como faço quando gosto muito de algo e estou entusiasmado num jantar de amigos. Provavelmente não mos devolveram, mas não posso censurar ninguém: é difícil libertar-nos deles depois de lidos.  Nunca os conheci pessoalmente, embora sempre o achemos de quem lemos ...

Luis Sepúlveda

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Luis Sepúlveda

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

Acrílico sobre tela Não  Não eras tu a olhar-me Mas a tua mão 

Rubem Fonseca

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Rubem Fonseca

Diário de um recolhimento 21

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15/04/2020 21 dias de recolhimento. Ontem a Betânia adormeceu enquanto lhe lia o diário. Trata-se do meu primeiro encontro com a crítica literária. Pior do que dizerem mal é compararem-nos a Morfeu. A meu (e seu) favor as vezes que adormeço com um livro na mão, que não são poucas, principalmente quando o trabalho é muito. Sinto falta desses dias. O trabalho não liberta mas valoriza, mesmo quando o dia não foi o que quisemos fazer dele. Morfeu no dicionário de mitologia: filho de Hipno, toca os mortais com uma papoila para que adormeçam. Se te apanho... Hoje nasceu Leonardo da Vinci, faria 568 anos. Homem da renascença, pintor, escultor, engenheiro, físico, filósofo, anatomista, arquitecto. Nem sempre por esta ordem, um homem universal, o contrário dos super-especialistas de hoje.  599 mortos no total em Portugal. Nos Estados Unidos 2200 mortos num dia, Donald Trump interrompeu o financiamento americano à OMS e quer o nome dele nos cheques de ajuda aos mais desfavorecidos. ...

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

Ontem à noite Pois se nem os teus dentes marcados Como acreditar

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

As lágrimas dela Maldita malagueta Maldita cebola Malditos crocodilos

Diário de um recolhimento 20

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14/04/2020 Hoje começou a “escola”. A Inês já com as fichas de trabalho, quando me pede para corrigir diz: “Não carregues nos males, papá!” Para depois poder apagar. Mas quando a ouvi dizer isto a primeira vez pensei, é mesmo o que se quer, que não se carregue nos males. Não é fácil nesta altura, na verdade não é fácil em nenhuma altura, mas agora podemos, relativizando o que se passou até há três meses atrás. Carregar nos males não é o mesmo que carregar os males. A segunda opção pode ser estóica, a primeira, não. A primeira é calimerice.  De manhã saio cedo para Guimarães, trabalho o dia todo. Nada voltou ainda à normalidade, mas é bom ter a sensação de ir para o trabalho. Ouço a lista de Clássicos de Rock, a que o André chama de jurássicos de rock. “Stairway to Heaven” é melhor não, “If I Can Dream” talvez, “Highway to Hell” espero que ainda não, “Should I Stay or Should I Go” stay!!, “We Can Work It Out” sem dúvida, “All You Need is Love”.  À frente, o letreiro el...

Diário de um recolhimento 19

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13/04/2020 Maria Bethânia, não a minha, a irmã do Caetano, a declamar um poema que todos pensavam ser algo actual pela temática, mas no fim vai-se a ver e é Álvaro de Campos com o seu “Ultimatum” - reproduzido no fim do texto. “Mandem tudo isso para casa/descascar batatas simbólicas”. “E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados pra baixo à/porta da Insuficiência da Época!” Actual, não? Anda aí alguém com as orelhas quentes? Abro o meu Álvaro de Campos e calho na Tabacaria. É claro que não é ocasional, o livro está marcado pelas vezes que o li: “Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada./À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Tem dias, tem dias. Hoje por exemplo é dia de não sou nada e sem sonhos. No fundo temos todos pontos de contacto, mesmo o mais vil dos homens pode gostar do seu cão - veja-se Hitler - e o mais dócil dos homens pode empunhar o punhal e assassinar, basta colocá-lo em certo contexto. É claro que o que ...

Leituras - “Entretanto” John Berger

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“Entretanto” John Berger – Antígona Livros que trazem livros, este vem da Alexandra Lucas Coelho: começo e acabo: “Entretanto “ do John Berger , um ensaio sobre os nossos dias. Contra o quotidiano. Contra o que parece estar certo. “De uma ponta à outra do planeta, nós vivemos numa prisão.” A maldição de ser diferente, de dizer “e se...”, de não estar contente com toda a materialidade ou mesmo com toda a espiritualidade que nos é imposta. O poder escolher, mesmo quando narizes se torcem. É perigoso. É premente. “Os encarcerados nunca aceitam o presente como definitivo.” Alberto Pimenta numa jaula do Zoo de Lisboa. Alguém pergunta: “O que está aí a fazer?” Ao que ele retorquiu: “E você?” Vai-se a ver, e John Berger recusa ser oficial na segunda Guerra (desculpe, guerra) e vive ao lado do soldado raso escrevendo-lhes as cartas e ficções. Vai-se a ver e existiu um “Congresso pela Liberdade da Cultura “ na Europa criada pela CIA na guerra fria. Vai-se a ver e acabei um livro ...

Poesia

Só gosto de pessoas boas quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy  sei lá o quê  se não são boas pessoas  não prestam Poema da Adília Lopes Do livro “Estar em Casa” Na Assírio & Alvim

Poesia - António Musa - Livro dos Amores

Gosto de jogos: a pestana perdida  verdade ou consequência  roleta russa roubar-te um beijo

Diário de um recolhimento 18

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12/04/2020 Dia de Páscoa. Acordo às 7h, desta vez sem despertador, aliás tive a primeira insónia deste que tudo começou. Abro a janela para o Porto e lá em baixo o rio Douro é um lago, tranquilo como um felino, como se nada houvesse por baixo, como se o mar não o esperasse ali já. Inesperadamente, o mar é uma placa de zinco a reflectir as nuvens de tempestade, grisalho e tumultuoso como uma crise de meia idade. Tudo dorme, vou de bicicleta buscar pão (na Páscoa pão), quando regressei abri a antologia de poesia sobre o mar da América Latina: “Que inútil seria agora o mar sem a tua presença nas águas.” José Ramon Heredia. O mar, capaz de apagar mil fogos, o mar rasgado ao meio por Moisés - que deu origem aos piores efeitos especiais da história do cinema - o mar onde Jesus Cristo encontrou Pedro que agora reza só na praça com o seu nome. A nossa tradição religiosa judaico-cristã instalou-se totalmente no dia de hoje, mas já era uma comemoração da primavera, por isso renascimento,...

Diário de um recolhimento 17

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11/04/2020 Despertador para as 7h, despertador destruído às 07:01h, lapso de tempo em que tacteei a procurá-lo com queda de livro e caneta e derrube de garrafa de água. Adormeci outra vez. Dormir dá para passar o tempo. Quando acordei de vez olhei para o ecrã do telemóvel e li sobre valas comuns em Nova Iorque. Afinal não foi tudo um pesadelo, a realidade é pior que os pesadelos. A nossa Nova Iorque, como é possível? Ao caminhar em direcção à sala passo pela fotografia de Henri Cartier-Bresson que trouxemos do MoMa quando lá fomos em 2010, já com as torres destruídas, e forço um sorriso. É uma cidade preparada para grandes desastres, com um corpo de bombeiros e policial exemplares, uma cidade com crime, mas também com nichos de tranquilidade e onde sentimos - como na canção - que tudo pode acontecer. Tudo menos isto: um assassino silencioso e invisível. Valas comuns lembram guerras civis em África, o holocausto, a Primeira Grande Guerra. Como é possível isto? Como escrever a his...